Jesús Vega, psicólogo: 'O autocuidado e o descanso não são um capricho, são uma necessidade humana'
Publicado em 13 de setembro de 2026 às 07:05
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Para o psicólogo Jesús Vega, descansar não deve ser visto como perda de tempo: o autocuidado é uma necessidade humana e os limites são fundamentais para preservar a saúde emocional
Jesús Vega, psicólogo: 'O autocuidado e o descanso não são um capricho, são uma necessidade humana' Burnout e saúde mental: entenda como a cobrança excessiva, a dificuldade de descansar e a falta de limites podem afetar a rotina Saúde mental no trabalho: veja por que estabelecer limites, desconectar-se do expediente e respeitar o descanso são atitudes importantes Produtividade em excesso pode fazer mal? Especialista explica como a cobrança constante pode contribuir para esgotamento emocional e físico Cansaço constante e dificuldade para se desligar do trabalho podem ser sinais de alerta; entenda a importância de reconhecer os limites do corpo e da mente

Vivemos em uma época em que estar sempre ocupado pode parecer sinônimo de competência, responsabilidade e até sucesso. O problema começa quando a produtividade deixa de ser apenas parte da rotina e passa a definir o valor que uma pessoa atribui a si mesma. Para o psicólogo Jesús Vega, essa lógica pode cobrar um preço alto da saúde mental e aprender a parar é uma necessidade, não um luxo.

Em entrevista ao portal espanhol Cuerpomente, o especialista falou sobre os efeitos da cobrança excessiva, os sinais de esgotamento profissional, os diferentes estilos de apego e a dependência emocional. As reflexões fazem parte de seu livro "Yo tampoco puedo con todo" ("Eu também não consigo dar conta de tudo"), obra na qual aborda também o burnout e os padrões de comportamento que podem estar por trás da sensação constante de não dar conta de tudo.

Quando a produtividade vira uma medida de valor

Segundo Jesús Vega, um dos problemas está na maneira como a sociedade passou a relacionar o valor das pessoas àquilo que elas conseguem fazer e produzir. Nesse cenário, descansar pode parecer improdutivo e até despertar culpa.

O psicólogo chama atenção justamente para essa inversão de prioridades. Quando o "fazer" ocupa espaço demais, a pessoa pode perder contato com as próprias necessidades e entrar em um ciclo de cobrança difícil de interromper.

A experiência pessoal do próprio especialista com o burnout serviu como ponto de partida para seu livro. Ele contou que, desde a adolescência e durante a universidade, era excessivamente responsável, perfeccionista e exigente consigo mesmo no âmbito acadêmico. 

Experiências difíceis vividas na infância fizeram com que concentrasse grande parte de sua energia nessa área, fazendo com que sua autoestima ficasse fortemente ligada ao desempenho acadêmico. Na vida adulta, esse padrão acabou se estendendo ao trabalho.

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Os sinais de que o corpo começa a cobrar a conta

A dificuldade de estabelecer limites profissionais fez com que Vega aceitasse funções que não lhe correspondiam e uma carga excessiva de trabalho. Foi nesse contexto que surgiram sintomas como dificuldade para se desligar das atividades profissionais durante a vida pessoal, cansaço, esgotamento emocional, irritabilidade e problemas de memória e concentração.

Quando esses sinais psicológicos não receberam a atenção necessária, o sofrimento também passou a aparecer fisicamente. O psicólogo relatou ter desenvolvido dores de cabeça, eczemas na pele, feridas e sangramento nas gengivas. 

A experiência levou a uma conclusão central de sua abordagem: é preciso prestar atenção aos sinais antes que eles se agravem. "Para não chegar ao ponto em que eu cheguei, é fundamental parar e ouvir nossas emoções e nosso corpo", afirmou.

Descansar não é preguiça

Para quem já entrou no ciclo da produtividade constante, estabelecer limites pode ser especialmente difícil. Vega reconhece que as condições do mercado de trabalho também podem tornar essa tarefa complicada, mas defende que preservar a saúde emocional precisa fazer parte dessa equação.

Uma das medidas citadas por ele é criar uma separação mais clara entre trabalho e vida pessoal. Isso significa, quando possível, não transformar o período de descanso em uma extensão do expediente, evitando atender ligações e mensagens profissionais durante o tempo de lazer.

"Não somos máquinas de produzir, somos pessoas", afirmou o psicólogo. Em seguida, resumiu uma das principais ideias de sua reflexão: "O autocuidado e o descanso não são um capricho, são uma necessidade humana".

O passado pode explicar padrões do presente

A discussão proposta por Jesús Vega não fica restrita ao ambiente profissional. Na entrevista, ele relaciona a maneira como lidamos com trabalho, família, parceiros e com nós mesmos aos chamados estilos de apego.

Para o psicólogo, experiências vividas durante a infância e a adolescência, especialmente na relação com pais, cuidadores e outras pessoas próximas, podem influenciar a maneira como construímos autoestima, lidamos com nossas emoções e estabelecemos vínculos na vida adulta.

Vega cita quatro estilos de apego: ansioso, evitativo, desorganizado e seguro. Segundo ele, o apego seguro é o único considerado saudável, enquanto os demais podem estar associados a dificuldades na relação consigo mesmo e com outras pessoas.

No apego ansioso, por exemplo, pode existir medo intenso de abandono e uma tendência a permanecer em relações prejudiciais por receio de ficar sozinho. Já no apego evitativo, a pessoa pode apresentar dificuldade para expressar emoções e construir uma espécie de barreira para proteger seu mundo emocional.

Dependência emocional não é o mesmo que amor

Outro ponto abordado pelo especialista é a dependência emocional. Para ele, esse padrão envolve uma necessidade extrema de carinho e afeto acompanhada de um medo intenso da solidão.

Nessas situações, o relacionamento pode ocupar um espaço desproporcional na vida da pessoa, que passa a priorizá-lo em detrimento de outras áreas. Vega também chama atenção para vínculos desequilibrados, nos quais uma pessoa entrega muito mais do que recebe. Uma das distinções apresentadas por ele é entre desejar estar com alguém e sentir que precisa daquela pessoa para conseguir seguir em frente.

No primeiro caso, o vínculo nasce da preferência, do desejo e da possibilidade de construir uma relação que contribua para a qualidade de vida. No segundo, a busca por afeto pode acontecer em meio à urgência e ao medo da solidão, levando alguém a aceitar menos do que considera saudável.

A armadilha das relações de idas e vindas

Quando o apego ansioso e o evitativo se encontram, Vega descreve uma dinâmica que chama de "relação ioiô": um ciclo de rompimentos e reconciliações que pode se repetir continuamente.

De acordo com o psicólogo, a pessoa com apego ansioso pode terminar o relacionamento por não receber atenção suficiente. O parceiro com apego evitativo, então, pode demonstrar arrependimento e prometer mudanças. A reconciliação acontece, mas o comportamento distante pode retornar dias ou semanas depois, reiniciando o ciclo.

Para Vega, reconhecer conscientemente essa dinâmica é um passo importante para interromper o padrão. Se os envolvidos identificarem o círculo vicioso e estiverem dispostos a trabalhar juntos, a relação pode sair desse movimento repetitivo.

Por que estamos sempre preocupados?

O psicólogo também relaciona a dificuldade de desacelerar à maneira como a sociedade estimula preocupações constantes. Saúde, dinheiro, trabalho, alimentação e futuro aparecem como fontes permanentes de ansiedade em meio a uma avalanche de informações.

"Vivemos em uma sociedade da preocupação", afirmou Vega, ao explicar por que tantas pessoas permanecem em estado de alerta. Para ele, essa lógica pode fazer com que a sociedade se torne mais propensa ao adoecimento.

A saída proposta pelo especialista passa por recuperar a atenção ao presente. Em vez de viver continuamente em função de um futuro que ainda não chegou, ele defende a importância de se conectar com o "aqui e agora".

A recomendação pode ser simples: um passeio por um parque, algumas páginas de um livro ou um banho relaxante. Não se trata de abandonar responsabilidades, mas de abrir espaço para momentos que não estejam submetidos à lógica permanente da produtividade.

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